Indicadores Técnicos e Econômicos na Pecuária Leiteira: como medir?

Publicado em: 29 de dezembro, 2020 - por Janaina Campos
indicadores técnicos e econômicos

Só é possível gerir aquilo que se pode medir, e na fazenda leiteira isto não é diferente. Toda e qualquer empresa deve anotar e mensurar periodicamente seus indicadores, processos, práticas e estratégias.

Dessa forma, para o sucesso na atividade, o produtor deve constantemente lançar mão de análises de indicadores técnicos e indicadores econômicos da pecuária leiteira para as tomadas de decisão.

Um empreendimento rural deve contar com o devido planejamento de curto, médio e longo prazo. E neste contexto está inserida a importância da coleta e uso rotineiro de dados reais e confiáveis.

Mas então quais são os principais gargalos da gerência e administração de fazendas leiteiras? Confira a seguir!

Indicadores Técnicos

Os indicadores técnicos são aqueles em que se mensura o desempenho do produto e dos meios necessários para sua produção em quantidade e qualidade. Nesse sentido, deve-se medir tudo aquilo que exerce influência dentro do sistema de produção até o ponto em que o produto final, no caso o leite, é entregue ao laticínio.

A seguir encontram-se listados alguns dos itens de maior importância no estudo de indicadores técnicos em uma fazenda leiteira:

Ganho de Peso (GMD e GPP)

Um dos critérios utilizados para definir se a novilha encontra-se em idade reprodutiva é a sua massa corporal. Portanto, desde o seu nascimento, deve ser garantida a sua sanidade e alimentação para que este peso seja alcançado na idade ideal (aproximadamente 12 meses).

Dessa maneira, periodicamente os animais de cria e recria devem ser pesados e calculados o Ganho Médio Diário (GMD) e o Ganho de Peso Ponderal (GPP).

O GMD é a relação entre a diferença entre o peso atual e o peso da última aferição e o período de tempo entre as duas pesagens. O desejável é que esteja acima de 700 gramas por dia. 

GMD = (peso atual – peso anterior) (data atual – data da pesagem anterior)

Já o GPP é a relação do ganho de peso desde o nascimento até a data atual.

GPP= (peso atual – peso ao nascimento) (data atual – data do nascimento)

Ambos, GMD e GPP, exercem influência direta na Idade à Primeira Inseminação e, consequentemente, na Idade ao Primeiro Parto.

Idade à Primeira Inseminação

Nos rebanhos leiteiros, deve-se calcular a Idade à Primeira Inseminação Prevista. Por meio deste cálculo o produtor terá uma previsão de quando a novilha estará apta a ser inseminada.

ID. 1ª IA. Prev. = [(peso à puberdade – peso atual) GPP 30,42 dias] + idade

Em que peso à puberdade é aquele no qual a novilha encontra-se com 60% do seu peso quando adulta. Ou seja, se as vacas adultas do rebanho tem em média 550 quilos as novilhas podem ser inseminadas quando atingirem 330 quilos. 

Ademais, a Idade à Primeira Inseminação alcançada também deve ser mensurada. De acordo com a diferenças entre a prevista e a real podem ser tomadas decisões e realizadas mudanças no manejo em busca de melhorias.

Idade ao Primeiro Parto

A previsão da Idade ao Primeiro Parto consiste na soma da Idade à Primeira Inseminação Prevista com a duração de uma gestação. Da mesma forma que a Idade à Primeira Inseminação, a Idade ao Primeiro Parto real também deve ser acompanhada.

ID. 1º P. Prev. = ID. 1ª IA. Prev. + 9,5 meses

Dias em Lactação (DEL)

O DEL é o cálculo do período desde o parto até a data atual. É um indicador muito importante, pois ocorrem grandes mudanças na quantidade e qualidade de produção de leite pela vaca quando está mais avançada da lactação. Além disso, pode indicar possíveis problemas reprodutivos.

DEL = data atual – data do último parto

Período Voluntário de Espera (PVE)

É o período de tempo em que se espera o organismo da vaca voltar ao normal após o parto. Depende de cada fazenda, entretanto geralmente está entre 45 e 60 dias.

Período de Serviço (PS)

O Período de Serviço (PS) é o intervalo entre o parto e uma nova concepção. Indica possíveis erros de manejo e eficiência reprodutiva, além disso, é influenciado pelo PVE.

PS = data da última IA fértil – data do parto atual

Intervalo de Partos (IP)

É o período compreendido entre o parto atual (último parto) e o anterior. Indica possíveis falhas no manejo reprodutivo e é influenciado pelo PS.

IP = data do pato atual – data do parto anterior

Dias Pós Inseminação Artificial (DPIA)

Indica o estágio de gestação por meio da diferença entre data presente e a data da última Inseminação Artificial. Este indicador é importante, pois mostra os animais que estão aptos para o diagnóstico de gestação.

DPIA = data presente – data da última IA

Previsão de Parto 

Após confirmação da gestação, a Previsão de Parto estima a possível data de parição. Esta previsão é importante para a secagem dos animais e separação destes em lote pré-parto.

Prev. Parto = data da última IA fértil + 285 dias

Controle Leiteiro

O Controle Leiteiro refere-se à pesagem periódica da produção de leite de cada animal em lactação. Deve ser realizado com frequência mínima mensal, e em posse dos dados gerados é possível realizar arraçoamentos e linhas de ordenha.

Além disso, é uma excelente ferramenta para compreensão de estágios, persistência e curvas de lactação.

Vacas em lactação / total de vacas e Vacas em lactação / total do rebanho

Estes dois indicadores inferem sobre a parte do negócio que traz lucro, ou seja, as vacas em lactação. 

Vacas em lactação sobre total de vacas (VL/TV) diz sobre a rotatividade de matrizes em lactação e em período seco na fazenda. O desejável é que no rebanho leiteiro haja animais em todos os estágios de lactação para que ao longo do ano seja mantido um padrão de produção de leite. 

Isto será possível por meio de uma porcentagem constante de animais em lactação, ou seja, ao passo que existem animais entrando em período de secagem também existem aqueles que estão parindo e produzindo leite. 

Vacas em lactação sobre o total do rebanho (VL/TR) é influenciado por VL/TV e informa sobre fatores como eficiência reprodutiva do rebanho. Quando a recria está com um grande número de animais isto pode indicar que a fazenda é ineficiente em fornecer condições para que os animais tenham uma idade ao primeiro parto adequada. Nestes casos, o VL/TR é baixo e infere que existem menos recursos produtivos gerando lucro (vacas em lactação) do que o ideal. 

As vacas em lactação devem ser pelo menos 83% do total de vacas e mais que 50% do total do rebanho.

Produção/ área para pecuária (L/ha/ano)

Refere-se à eficiência de uso da terra para produção de leite. Segundo dados do Educampo, o benchmarking deste indicador é de aproximadamente 6.000 litros/ha/ano.

Indicadores Econômicos

Os indicadores econômicos na pecuária leiteira são aqueles que atribuem valores econômicos aos processos produtivos. Dessa maneira é de fácil visualização se as práticas de manejo realizadas são técnica e economicamente viáveis.

Os indicadores econômicos são apresentados a seguir:

Renda Bruta (RB)

Refere-se ao valor bruto oriundo dos processos da atividade. A RB do leite (RBL) é aquela receita obtida da venda do leite e RB da atividade (RBA) é a soma das receitas do leite, da venda dos animais e venda de outros produtos – em alguns casos soma-se também a Variação do Inventário Animal (VIA). É expressa em R$/ano.

Variação do Inventário Animal (VIA)

Quando o rebanho não está estabilizado inclui-se à Renda Bruta da Atividade (RBA) a Variação do Inventário Animal (VIA) a fim de corrigir distorções.

VIA = VRF – VRI – VC

Em que,

VRF:  valor do rebanho no final do período;

VRI: valor do rebanho no início do período;

VC: valor de compra de animais no período.

Custo Operacional Efetivo (COE)

São aqueles onde há desembolso direto de capital. Segundo  Santos et al. (2009) os itens de impacto no COE do leite são “mão de obra contratada, concentrados, manutenção de forrageiras não-anuais, mineralização, sanidade, energia e combustíveis, material de ordenha, inseminação artificial, frete de leite, impostos e taxas, reparos em benfeitorias e máquinas e outras despesas de custeio”. Ou seja, o COE aumenta em caso de aumento de produção.

Custo Operacional Total (COT)

É a soma do COE e as despesas com mão de obra familiar, depreciação de máquinas, benfeitorias, forrageiras não-anuais e animais de serviços.

Depreciação

É a redução do valor dos produtos que ocorre ao longa da sua vida útil. É calculada na forma de valor contábil que deve ser destinado à geração de fundos para substituição de bens.

Depreciação = (valor novo – valor de sucata) vida útil total

Custo Total (CT)

O Custo Total é a soma do COT com a remuneração do capital médio investido em animais, benfeitorias, máquinas, forrageiras não-anuais e terras.

Remuneração do Capital

O cálculo da remuneração do capital dependerá de qual item está sendo analisado. Entretanto, a taxa de juros está presente em todas metodologias e deve ser considerada como sendo aquela em que o dinheiro renderia se estivesse aplicado em outro negócio ou na poupança, por exemplo.

Margem Bruta (MB) da atividade

É a diferença entre a Renda Bruta da Atividade (RBA) e os Custos Operacionais Efetivos (COE). Avalia a atividade no curto prazo.

MBA = RBA – COE

Margem Líquida (ML) da atividade

É calculada pela diferença entre Renda Bruta da Atividade (RBA) e os Custos Operacionais Totais (COT) e é usada para avaliar a atividade em médio prazo.

MLA = RBA – COT

Lucro da atividade

É indicador de viabilidade em longo prazo e seu valor pode ser obtido por meio da diferença entre a Renda Bruta da Atividade (RBA) e os Custos Totais (CT).

Lucro = RBA – CT

Taxa de Remuneração do Capital (TRC)

A taxa de remuneração do capital pode ser obtida pela relação entre a margem líquida da atividade e o estoque de capital, este pode ser utilizado com ou sem o valor da terra.

Indica a rentabilidade do empreendimento podendo ser comparada à outros  negócios. Desse modo, é possível inferir se a atividade é atrativa. 

TRC = (MLA estoque de capital) 100

A rentabilidade mede o retorno que um investimento pode trazer para o empreendimento, permitindo que seja possível comparar os rendimentos com outras alternativas de aplicação do capital.

Lucratividade 

É o retorno obtido sobre a renda bruta da atividade. Sendo assim, lucratividade pode ser entendida como um indicador que infere sobre a margem esperada para aquela atividade, portanto, é uma parâmetro do risco do investimento.

Lucratividade = MLA RBA

E então, como iniciar a gestão da minha fazenda leiteira?

O primeiro passo é o mais simples: anotar todas as despesas, receitas e atividades de manejo. Em seguida, é hora de transformar estas informações em dados, para isso você pode utilizar planilhas de excel ou softwares específicos.

As análises técnicas e econômicas podem demandar um conhecimento mais aprofundado do assunto. Portanto, recomendamos que você se aprofunde neste assunto se inscrevendo em nossa Pós-Graduação de Produção de Gado de Leite.

Fontes: Educampo, EducaPoint 1 e 2, Procreare, Prodap, Revista Leite Integral, Santos et al. (2009), Sebastião Teixeira Gomes, Treasy, UFV