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Como deve ser feito o monitoramento de doenças no pós-parto

Publicado em: 12 de julho, 2021

Vacas leiteiras, principalmente de alta produção, são animais suscetíveis a doenças após o parto devido a alterações de seu metabolismo por sobrecarga metabólica. A maioria dessas doenças são difíceis de serem notadas e limitam a produção (Overton et al., 2017). Disso decorre a necessidade do monitoramento de doenças no pós-parto.

Entenda mais sobre este assunto a seguir!

Alterações no período de transição

Durante o período de transição (21 dias antes e após o parto) esses transtornos podem ocorrer inclusive de forma relacionada, por exemplo, se uma vaca sofrer hipocalcemia puerperal – febre do leite, terá 4 vezes mais chance de também ter retenção de placenta (RTP) que aumenta a probabilidade de ocorrência de cetose e hipocalcemia (Curtis et al., 1983). 

Em geral, esses distúrbios metabólicos se dão por desequilíbrios minerais, energéticos e proteicos que ocorrem no balanço energético negativo (BEN) e podem acarretar além de doenças como acidose, cetose, retenção de placenta e hipocalcemia, a redução da produção de leite e problemas reprodutivos (Roberts et al., 2012).

A hipocalcemia causa um aumento significativo de retenção de placenta e de cetose. Ambas doenças agravam ainda mais o BEN, atrapalhando a vida produtiva da vaca. Isso por que o Ca2+ participa do processo de contratilidade muscular e consequentemente de expulsão da placenta, que deve ser reconhecida como corpo estranho, o que significa que também é dependente de uma boa resposta imune do animal (Corbellini, 2000).

Monitoramento da hipocalcemia

Para monitoramento da hipocalcemia, temos dois testes de rotina a serem feitos:

  • Avaliação de pH urinário em vacas no pré-parto (caso as vacas estejam recebendo dieta aniônica), onde este deve estar entre 5,5 e 6,5.
  • Avaliação de cálcio sanguíneo aos 7 dias pós parto para avaliar a hipocalcemia sub-clínica, onde os valores no plasma devem estar entre 2,2 a 2,6 mmol/L. 
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Período de transição: Exame do pH urinário da vaca - Comunidade Gado de  Leite

Figura 1 – Aparelho medidor de cálcio e tira reagente para medir o pH urinário.

Em relação a hipocalcemia, outras medidas como suplementação de Ca2+ via oral pós-parto (Goff, 2008), administração de CaCl2 pós-parto para obtenção de maiores níveis séricos de Ca2+ logo após o parto e administração de vitamina D ou análogos pelo menos uma semana antes do parto (para aumentar a absorção de Ca2+ no intestino) podem ser adotadas para reduzir a incidência dessas desordens (Afshar et al., 2018). 

Consequências do déficit de energia no pós parto

O déficit de energia que ocorre no BEN leva à mobilização das reservas corporais que induzem a lipólise e liberação de ácidos graxos não esterificados (AGNE) no sangue (Chapinal et al., 2012). Cerca de 15 a 20% desses AGNE são removidos pelo fígado onde serão oxidados para fornecer energia para o próprio órgão, ocorrendo produção de corpos cetônicos que serão liberados no sangue para serem usados como fonte de energia, ou reconvertidos a triglicerídeos (TAG) para armazenamento no tecido adiposo.

Assim, vacas com intenso BEN passam por uma excessiva produção de AGNE e corpos cetônicos (Gonzalez e Silva, 2006), ficando predispostas a cetose e esteatose hepática (Loor et al., 2013). Um método muito interessante de monitoramento de Cetose é a medição de corpos cetônicos (beta hidroxibutirato), através de aparelhos semelhantes àqueles de medição de glicose em diabéticos. Nesse caso, o monitoramento das doenças no pós parto ocorre por volta de 3 a 7 dias de parida e o ideal é termos valores inferiores a 1,2 mmol/L de sangue. Há divergências entre alguns autores, mas trabalhamos com os seguintes parâmetros: entre 1,2 e 2,5 mmol/L de cetose sub-clínica, e acima de 2,5 mmol/L cetose clínica.

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Figura 2 : Ketovet (aparelho para medir corpos cetônicos).

Doenças no pós parto e escore de condição corporal

Um fator importante relacionado à prevenção de todas essas doenças no pós parto é o monitoramento do escore de condição corporal que é mensurado em uma escala de 1 a 5, sendo 1 um animal caquético e 5 um animal obeso. Esse monitoramento está diretamente relacionado à ocorrência desses distúrbios nos animais (Houe et al., 2001). 

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Figura 3: Moraes (2005)

Além das doenças metabólicas citadas acima, temos outras que merecem destaque como a acidose, deslocamento de abomaso, retenção de placenta, entre outras.

Identificação e medidas profiláticas

Nesse sentido, casos clínicos de acidose devem ser identificados imediatamente e a taxa de ruminação, aspectos das fezes dos animais, são fatores importantíssimos para um diagnóstico precoce. É necessário ainda que a adaptação a alimentos concentrados seja feita de forma gradual para adaptação dos microrganismos. Esses animais também não devem ficar muito tempo sem receber alimento ao longo do dia uma vez que isso pode gerar queda brusca do pH ruminal (Beauchemin & Penner, 2014). O tamanho de partículas também é importante pois pode promover mais ou menos salivação que tem ação de tamponamento. 

SENAR Avaliação de fezes para monitorar nutrição de vacas leiteiras
Revista Leite Integral - Monitoramento de vacas leiteiras no período de  transição

Figura 4 – Fezes ideal (foto a esquerda) , fezes com bolas e mais líquidas (direita – sugestivo de acidose subclínica). Fonte : SENAR e Revista Leite integral.

A superlotação de vacas e o estresse térmico também devem ser evitados, já que congestionam o acesso ao comedouro ocasionando estresse que vai reduzir ainda mais a eficiência do sistema imunológico que já estará comprometida, e é um dos principais fatores quando se fala em Retenção de Placenta (Ortolani, 2018). 

Sendo assim, um protocolo de avaliação das vacas na primeira semana pós-parto é muito importante! Uma sugestão de manejo seria:

  • Avaliar diariamente: Temperatura, Auscultação, Aparência geral (flanco cheio, odor…) e fezes.
  • Avaliar Corpos cetônicos no terceiro dia.
  • Avaliar níveis de cálcio no sétimo dia.

E a partir dessas avaliações criarem um protocolo para tratar e prevenir as possíveis doenças!

Portanto, trabalhar estratégias de monitoramento para minimizar os impactos negativos ocasionados por esses mecanismos fisiológicos ou “patológicos” de adaptação é um desafio contínuo que não deve ser negligenciado, não só pensando na prevenção de doenças metabólicas, mas também na futura produção leiteira dos animais. 

Priscila Carla de Matos

Marcus Vinicius Castro Moreira

BIBLIOGRAFIA

Afshar S. et al. Effect of postparturient oral calcium administration on serum total calcium concentration in Holstein cows fed diets of different dietary cation-anion difference in late gestation. Research in Veterinary Science, 117: 118-124, 2018.

Beauchemin, K.A.; Penner, G. New developments in understanding ruminal acidosis in dairy cows. Disponível em: <https://articles.extension.org/pages/26022/newdevelopments-in-understanding-ruminal-acidosis-in-dairycows> Acesso em: 04/05/2021.

Curtis, C.R., et al. Association of parturient hypocalcemia with eight periparturient disorders in Holstein cows. JAVMA 183: 559-561, 1983.

Corbellini C. Influencia de la nutrición en las enfermedades de la producción de las vacas lecheras en transición. XXI Congreso Mundial de Buiatría, Punta del Este, Uruguay, 689: 16, 2000. 

Chapinal, N. et al. The association of serum metabolites in the transition period with milk production and early-lactation reproductive performance. Journal of Dairy Science, v.

95, p. 130-1309, 2012.

Goff J.P. The monitoring, prevention, and treatment of milk fever and subclinical hypocalcemia in dairy cows. The Veterinary Journal 176: 50–57, 2008.

Gonzalez, F.H.D.; Silva, S.C. Introdução à bioquímica clínica veterinária. Porto Alegre: Editora Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2006.

Houe H., et al. Milk fever and subclinical hypocalcaemia. An evaluation of parameters on incidence risk, diagnosis, risk factors and biological effects as input for a decision support system for disease control. Acta Vet Scand 42: 1-29, 2001.

Loor, J.J. et al. Systems physiology in dairy cattle: nutritional genomics and beyond. Annual. Reviews of Animal Biosciences, v. 1, p. 365-392, 2013.

Overton T.R. et al. A review: metabolic health indicators and management of dairy cattle. Journal of Dairy Science. 100: 10398-10417, 2017.

Ortolani, E.L. Comunicação pessoal. São Paulo, 2018.
Roberts T., et al. Metabolic parameters in transition cows as indicators

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