O que você precisa saber sobre reprodução de bovinos leiteiros?

Publicado em: 30 de dezembro, 2020 - por Janaina Campos
reprodução de bovinos leiteiros

A reprodução de bovinos leiteiros deve ser planejada e realizada  pensando no futuro do rebanho. Afinal, a produção de leite sofre influência da genética dos animais e também de bons índices reprodutivos.

Sendo assim, para trabalhar com rebanhos leiteiros o melhoramento genético é fundamental. E aqui, gostaríamos de explicar que o melhoramento genético deve ocorrer buscando tornar os animais do plantel aptos às condições de manejo da fazenda associado a boa produtividade e desempenho.

Por isso, esse texto abordará sobre como ocorre o manejo reprodutivo de bovinos leiteiros e seus principais gargalos.

Leia a seguir.

Como a reprodução ocorre?

São diversos os meios de emprenhar uma vaca, por exemplo a monta natural e as variações da inseminação artificial.

A monta natural ocorre quando o touro “cobre” a vaca. Essa metodologia é relativamente simples, pois não exige o manejo do animal por funcionários reduzindo os custos com mão de obra. No entanto, existem algumas desvantagens desse sistema, sendo elas:

  • Falta de garantia da genética e sanidade do touro utilizado, podendo acarretar em transmissão de doenças reprodutivas;
  • Como a cópula dos animais pode ocorrer em qualquer horário as anotações podem ser falhas;
  • Se o peso do touro for elevado pode machucar a fêmea no momento da cobrição;
  • Os machos geralmente têm uma tendência de se tornarem mais ariscos e portanto podem comprometer a segurança dos trabalhadores.

Já na Inseminação Artificial (IA) ocorre a deposição do sêmen do touro diretamente no útero da vaca. O produtor deve lançar mão de sêmens de touros que passaram por provas e possuem garantias de sua genética. Nesse tipo de manejo reprodutivo a dependência da mão de obra é elevada e esta precisa ser devidamente capacitada.

A IA evita a disseminação de doenças e permite que o melhoramento genético seja de certa forma democratizado, podendo ser utilizado por pequenos, médios e grandes produtores. Entretanto, a técnica  apresenta algumas desvantagens como a baixa prenhez, quando o cio não é observado corretamente e pode estar causando a expressão de genes negativos no rebanho.

Em seguida apresentamos algumas das variações da IA.

Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF)

Na IATF realiza-se um protocolo de sincronização hormonal do cio de todas as fêmeas que tenham condições de ter uma gestação. Uma das vantagens da IATF é que  pode minimizar o número de manejos reprodutivos e aumentar o número de fêmeas submetidas à inseminação de uma só vez. Dessa forma o produtor não é mais dependente da vigilância constante da expressão do cio pelas fêmeas.

Em rebanhos leiteiros a IATF deve ser manejada de modo que os partos sejam escalonados em quantidade similar ao longo do ano. Assim, é possível manter um equilíbrio entre vacas em início, meio e fim de lactação permitindo uma produção de leite constante.

Produção in vitro (PIV)

A produção in vitro de embriões de bovinos leiteiros é uma técnica em que ocorre a fertilização in vitro (FIV) do oócito pelo espermatozóide em laboratório. 

Dessa forma, torna-se possível utilizar tanto a genética do touro quanto da vaca de melhor desempenho produtivo. A vaca aspirada pode ser do próprio rebanho ou o material pode ser adquirido de uma empresa de reprodução, assim como o sêmen. A principal vantagem é poder gerar produtos de alto padrão sem a necessidade de manter matrizes e touros de alto valor na propriedade.

Transferência de embrião (TE)

O embrião é o estágio inicial do desenvolvimento de um organismo, ou seja, é o produto da fecundação do óvulo. Dessa forma, a TE ocorre quando o embrião gerado a partir de uma fêmea doadora com características desejáveis é depositado no útero da fêmea receptora

Uma das principais vantagens é obter mais de um bezerro por ano de uma mesma matriz, além de possibilitar que fêmeas com boas características possam continuar se reproduzindo mesmo que tenham desenvolvido alguma condição limitante.

Um bom touro: por que avaliar?

A avaliação da qualidade do material genético na reprodução de bovinos leiteiros é essencial para garantir o sucesso do programa. Para isso, deve-se adotar duas estratégias: exame andrológico e teste da progênie. 

Exame Andrológico

No exame andrológico realiza-se a inspeção por meio dos seguintes itens:

  • Exame geral: verificação do estado geral e do histórico do animal;
  • Exame do sistema genital (interno e externo): verifica-se a presença, dimensões, consistência e a mobilidade dos componentes do sistema genital e sua compatibilidade com a idade, desenvolvimento e raça;
  • Comportamento Sexual: capacidade do macho de reconhecer as fêmeas no cio;
  • Espermograma: avaliação do sêmen em relação ao volume, aspecto, turbilhonamento ou motilidade em massa, motilidade, vigor e concentração espermática.

Teste de Progênie

O outro método de avaliação da qualidade genética do touro é por meio da análise de sua progênie. Em outras palavras, a prova de touros ocorre pela verificação de sua capacidade de transferir determinada característica genética para a próxima geração. 

Quanto maior a progênie do touro, maior será a confiabilidade de sua prova (PTA) e isto é viabilizado pela Inseminação Artificial.

Além disso, deve-se conhecer a herdabilidade que consiste na capacidade do touro ou da vaca influenciarem em determinada característica de suas filhas. Portanto, existe uma relação diretamente proporcional entre o valor da herdabilidade e a velocidade com que o aspecto é melhorado.

Em seguida, analisa-se a PTA (Predicted Transmission Ability), que por definição é o mérito genético do touro para características de produção, pode ser positivo ou negativo. Um exemplo prático, a PTA para a produção de gordura indica quantos quilos a mais a filha de um touro provado produzirá de gordura do leite em relação à média das filhas dos touros que não são provados. 

Já a STA é é uma medida do mérito genético do touro para características de tipo e temperamento. O que são?

  • Ângulo da Garupa;
  • Profundidade de úbere;
  • Comprimento corporal;
  • Comprimento de garupa;
  • Largura entre ísquios;
  • Largura entre ílios;
  • Ângulo da garupa;
  • Ângulo de cascos;
  • Pernas (Vista lateral);
  • Pernas (Vista por trás);
  • Ligamento úbere anterior;
  • Úbere posterior (largura);
  • Profundidade do úbere;
  • Comprimento de tetos;
  • Diâmetro de tetos;
  • Facilidade de ordenha;
  • Temperamento;
  • Comprimento de umbigo.

Dessa forma, cada empresa de material genético apresenta os animais presentes em seu portfólio por meio de um sumário de provas. A escolha do animal dependerá das características a serem melhoradas no rebanho. Entretanto, o acasalamento deve ser feito com muita cautela, para evitar que ocorra o “pioramento” genético.

Detecção de cio

A detecção de cio é extremamente importante para o sucesso na reprodução de bovinos leiteiros. Apesar de existir protocolos de sincronização (IATF), estes podem representar um custo mais elevado e, portanto, o produtor lança mão de utilização apenas da inseminação artificial. 

Sendo assim, é necessário conhecer e vistoriar constantemente os sinais de que o animal está no cio para que a IA ocorra no momento adequado.

Como detectar o cio?

A maneira mais simples é a observação dos animais em horas estratégicas do dia por parte da mão de obra. A recomendação é que ocorra pelo menos no início da manhã e final da tarde durante 30 minutos. 

Resumidamente, as vacas no cio (estro) são aquelas que aceitam a monta. Ademais, animais em estro apresentam inquietação, cauda erguida, urina constantemente, vulva inchada e brilhante, muco cristalino e transparente, perda de apetite, entre outros sinais. 

Além disso, nas fazendas em que há assistência constante de um médico veterinário é possível utilizar de técnicas como ultrassonografia e palpação para detecção do cio. Estas técnicas monitoram o desenvolvimento folicular que indica a proximidade do período ovulatório.

Se a observação do cio for falha na propriedade, o produtor pode estar utilizando de outros mecanismos para melhorias nos índices reprodutivos. Os métodos são: 

  • Pedômetro: registra o movimento da vaca;
  • Giz, adesivos ou buçal marcador: marcam a vaca que aceitou a monta;
  • Rufiões: animais do sexo masculino que não podem reproduzir;
  • IATF.

De maneira geral, o cio dura em média de 10 a 18 horas, podendo variar entre 6 e 30 horas. 

A recomendação prática para inseminação é que ela ocorra no final do cio. Portanto, se a vaca aceitou monta na parte da manhã a inseminação deve acontecer na tarde do mesmo dia, ou ainda, se a detecção foi no período da tarde, o animal deve ser inseminado na manhã do dia seguinte. 

Como avaliar a eficiência na reprodução de bovinos leiteiros??

A eficiência na reprodução de bovinos leiteiros pode ser analisada por meio do cálculo das taxas de Detecção de Cio, Inseminação, Concepção e Prenhez e também por Serviços por Concepção.

Taxa de Detecção de Cio (TDC)

É obtida pela relação entre o número de cios observados e o número de cios reais. Deve ter um valor acima de 80% uma vez que avalia a observação do cio.

TDC = [cios observados (dia do último cio – dia do primeiro cio)] 100

Como ações para melhoria deste índice, temos:

  • Treinamento da mão de obra;
  • Observação dos animais para detectar mais cios;
  • Uso de tecnologias que auxiliem na detecção do cio;
  • IATF.

Taxa de Inseminação (TI)

Pode ser calculada por meio da fórmula:

TI = (VI VA) 100

Em que:

VI: vacas inseminadas nos últimos 21 dias;

VA: vacas aptas a serem inseminadas (que estão fora do Período de Espera Voluntário – PEV e não estão prenhes).

É influenciada principalmente pela detecção do cio.

Taxa de Concepção (TC)

A TC avalia a eficiência do inseminador, do reprodutor, do sêmen ou problemas reprodutivos das vacas. Dessa forma, falhas na inseminação, touro com baixa fertilidade, vacas com infecção uterina, estresse e problemas reprodutivos influenciam a TC negativamente. 

TC = (VP VI) 100

Em que:

VP: vacas prenhes;

VI: vacas inseminadas.

Taxa de Prenhez (TP)

É o indicador amplo da eficiência reprodutiva do rebanho, pois abrange a TI  e a TC.

TP = (TI TC) 100

Serviços por Concepção (SC)

Demonstra o número de sêmen ou cobrição gastos para emprenhar uma vaca. Infere sobre o custo operacional total da atividade, uma vez que quanto maior a SC, maiores serão os gastos com a concepção. Deve estar entre 1,5 e 2,0.

Pode sofrer influência negativa da mão de obra, fertilidade do sêmen e do touro, em caso de monta natural.

Reprodução e sucesso na atividade leiteira

A reprodução de bovinos leiteiros é fator determinante no sucesso produtivo e econômico da propriedade. Sendo assim, deve ser constantemente fiscalizada e devidamente planejada na busca de bons resultados.

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Fontes: CPT Cursos Presenciais 1 e 2, Embrapa, Shop Veterinário 1 e 2